O clichê de viver cada dia como se fosse o último

– Você ficou sabendo da garota que morreu?
– Vi, passou no noticiário, só se fala disso né…
– Dizem que estava andando pela rua e de repente: Caiu dura no chão!
– É? Dizem que chegou a ser levada para o hospital, mas não deu tempo de ser atendida.
– Ouvi também, morreu nos braços da mãe.
– Triste.
– É, pesado.
– Ela era jovem, bonita, saudável. Pelo menos aparentava ser pelas fotos.
– Uma conhecida minha disse que estudou com ela, disse que era boa gente.
– Uma pena.
– É. Sei lá, acho que tinha chegado a hora dela mesmo!
– Essas coisas são meio sinistras né?!
– Como são! Não adianta buscar resposta.
– Falaram que a culpa foi do hospital falido sem estrutura para atender, de remédio, de sei lá o quê…
– Acho que independente do motivo, esses tipos de morte chocam né?!
– Pra você ver… A menina acordou pra mais um dia comum, como todo mundo espera que seja, e não voltou pra casa.
– Nem pra vida. Tomara que ela tenha aproveitado o tempo que teve, pelo menos.
– Viu! Eu falo pra você… A gente tem que viver intensamente, fazer o que tiver vontade! Você diz o quê? “Nem tanto, não exagera! Para de frase cafona!”
– Eu só digo pra você ter limites, e o que você me diz? “Quem tem limite é município!”
– Mas é sério! Não encaro bem essas fatalidades.
– Quem encara? Não tem jeito, o negócio é acreditar em algo superior.
– Com certeza! Cada um com a sua fé. Mas isso tudo me faz ter a sensação de que qualquer dia pode ser eu, você ou quaisquer outros amigos nossos.
– Credo! Bate na boca. E na madeira. 3 vezes!
– Mas não é? Minha mãe diz: “Nunca se sabe o dia de amanhã.”
– Ela diz isso porque você não junta dinheiro!
– Olha bem pra minha cara de cofre! Depois dessa última, agora que não junto mesmo!
– Mas sério, sabe aquele clichê que você lê desde os 10 anos de idade em revista teen? Tipo, frase favorita de fulano: “Viva cada dia como se fosse o último.”.
– Gosto dessa frase desde os 10 anos! Só que com 10 anos não entendia bem o real sentido disso.
– Hoje a gente entende bem! Esquece, mas entende.
– É! Não que meus dias sejam sempre sensacionais… Mas acho que de ninguém é! Então… Tá bom!
– É tão natural nossa rotina que sei lá né… As vezes até esqueço que o que minha vó diz tem sentido: “Deus te deu o dom da vida minha filha.”
– Minha vó diz que viver é uma dádiva! E é mesmo.
– Precisa morrer uma desconhecida (com a nossa idade) pra gente ficar reconhecendo né?!
– Você sabe como funciona o processo de valorizar as coisas… Nesse caso não é uma coisa, é nossa vida.
– Já sei que tenho que agradecer todos os dias… Quando acordo e quando vou dormir!
– Sua vó né? A minha também ensinou!
– Carrega o clichê do “cada dia como se fosse o último” pra sua vida então, e ponto!
– Mais?
– Ai Deus… Então carrega as frases da sua vó que é melhor!
– Carrego tudo, pra garantir de lembrar!